Uma brasileira perdida no Oriente Médio escrevendo sobre a vida e sobre o mundo. Dicas de filmes, viagens, política, cotidiano e outras coisas mais.
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domingo, 22 de janeiro de 2017
Film producers seek support for work on refugees
Interview with director, Juliana Torquato
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| Sociologist, Juliana Torquato, author and director of the documentary Salm, Syria. |
Entrevista diretora documentário Salam, Síria, Juliana Torquato, a ANBA
Entrevista diretora documentário Salam, Síria, Juliana Torquato a ANBA
Campanha na internet quer arrecadar dinheiro para contar história de famílias sírias no Brasil, Alemanha e Jordânia. A ideia é que 'Salam, Síria' esteja pronto até o fim do ano.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
A mulher no Oriente Médio
Neste tempo em que estou vivendo no Oriente Médio pude notar o quanto que a mulher é importante nesta sociedade. Na verdade, a mulher é o alicerce de qualquer sociedade.
Muito se fala, se noticia sobre maus tratos, inferioridade, silêncio, opressão. Coisas que ocorrem em qualquer parte do mundo, mas que viram algo cultural se for no ORIENTE MÉDIO. O que estou vendo aqui são mulheres ativas, que estudam, que trabalham, que cuidam de seus filhos, que sorriem, que se divertem, que se embelezam e que os homens respeitam. Se há diferenças entre a mulher que vive no Oriente Médio e em outras partes do mundo? Claro. Sempre haverá alguma diferença entre nós. Nosso comportamento, nossa forma de se vestir, de lidar com pessoas e com situações. Até porque somos especiais, únicas.
Nos países de maioria muçulmana a mídia vive mostrando certas atrocidades que o sexo feminino passa. Mulheres são mortas, surradas, inferiorizadas, coisificadas o tempo todo no resto do planeta e em qualquer região do mundo isso não tem nada a ver com religião. Porém quando estas coisas ocorrem por aqui, a primeira coisa que se culpa não são os homens covardes, mas sim, a religião. Religião nenhuma ensina a bater e maltratar mulheres. NENHUMA. A própria mulher tem o direito pelo Alcorão de pedir o divórcio, caso seu marido a maltrate e é totalmente proibido o homem levantar a mão para sua mulher, algo que comprova que é covardia masculina e não religião. Mas sempre haverá a distorção, porém, não entremos em detalhes.
Se há coisas que são estranhas e talvez erradas, sim, há. Acho um absurdo mulheres não poderem dirigir na Arábia Saudita. Mas existe, no mesmo país, uma lei para protegê-las da violência doméstica. Tratar mau mulheres, animais, crianças não tem nada a ver com crença, é índole. O mundo está cheio de violência. Sempre esteve. Só que hoje ela chega aos nossos lares pela tv, pela Internet e bate à nossa porta instantaneamente. Em nenhum lugar precisaria haver lei para proteger mulheres se os homens tivessem dignidade e caráter.
As mulheres no Oriente Médio são professoras, engenheiras, médicas, arquitetas, empresárias, jogadoras de futebol, políticas, agricultoras...Estigmatizar as mulheres do Oriente Médio e chamá-las de oprimidas é um erro. Por que seriam? Por que cobrem seus cabelos e não andam chamando atenção com suas curvas? Por que precisam de permissão do pai para casarem? Ninguém melhor que nosso pai e nossa mãe para saberem o que é melhor para nós, não é? Ninguém nos ama tanto quanto eles. É a filha que está prestes a sair de casa, para viver com alguém pelo resto da vida, se for possível. Isso não é opressão, é amor. Forçar a casar com alguém que não ama já é outra coisa (algo natural em diversas culturas no planeta, no próprio Brasil isso já foi normal).
Nada melhor do que conhecer algo para falar dele. Convivendo com elas eu vejo que na verdade temos semelhanças universais. Somos sonhadoras, vaidosas e estamos em busca de algo que nos complete. No Oriente Médio não é diferente. As mulheres estarão sempre lutando por seus direitos, vivendo suas vidas corridas e cheias de tarefas seja na Arábia Saudita, no Líbano, no Brasil, na França ou em qualquer pedaço de terra deste planeta.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Palestrantes do "Fonteiras do pensamento" 2013
Acaba de ser lançado os nomes de alguns palestrantes que estarão presentes no "Fronteiras do pensamento" edição 2013 em Porto Alegre.
Karen Armstrong, 6 de maio
Historiadora britânica considerada uma das mais respeitadas estudiosas de questões religiosas. Nascida em Worcestershire, na Inglaterra, em uma família de ascendência católica irlandesa, Karen se dedicou à vida religiosa na juventude, e chegou a fazer votos como freira na Sociedade do Sagrado Menino Jesus. Depois de quatro anos, abandonou a vida no convento e se dedicou à academia. Seu interesse pelo tema dos fundamentos morais e filosóficos comuns entre o cristianismo e, em suas palavras, suas religiões irmãs, o judaísmo e o islamismo, desenvolveu-se enquanto trabalhava como apresentadora de documentários para o Channel Four. Nos anos 1980, viajou a Jerusalém para uma produção sobre a vida de São Paulo. Ela já chamou a estada na Cidade Santa como definidora para seus trabalhos subsequentes, como Uma História de Deus (1993), Jerusalém: Uma Cidade, Três Religiões (1996) e biografias de São Paulo (1983), Buda (2001) e Maomé (1991). Em 2008, agraciada com US$ 100 mil concedidos pelo TED Prize, deu início à Charter for Compassion, iniciativa focada na promoção de paz e concórdia entre diferentes visões religiosas.
Marina Silva, 27 de maio
Uma das pioneiras em trazer para a esfera pública questões sobre ecologia, Marina Silva é historiadora e pedagoga e foi companheira de Chico Mendes na luta pela preservação dos seringais amazônicos. Duas vezes senadora pelo PT do Acre, foi ministra do Meio Ambiente no governo Lula, de 2003 a 2008. Em 2009, filiou-se ao PV, pelo qual concorreu à Presidência em 2010. Trabalha hoje para criar um novo partido, o Rede Sustentabilidade.
Manuel Castells, 10 de junho
Sociólogo espanhol, é um dos principais pensadores da era da informação globalizada e de suas consequências na sociedade, na cultura e no espaço urbano. De orientação marxista clássica em seus primeiros trabalhos, dedicados à sociologia das metrópoles, tornou-se um pesquisador das transformações provocadas pela internet. É autor de mais de 20 livros, entre eles a trilogia A Sociedade em Rede, O Poder da Identidade e A Galáxia da Internet.
António Damásio, 24 de junho
Neurocientista português radicado nos Estados Unidos, onde leciona na Universidade do Sul da Califórnia, desenvolve pesquisas sobre o papel das emoções na cognição social e na tomada de decisões. Busca entender como o cérebro processa a memória e a linguagem, analisando também a base cerebral dos comportamentos sociais. Tem publicados no Brasil, entre outros, os livros E o Cérebro Criou o Homem e O Erro de Descartes.
Kwame Appiah, 12 de agosto
Filósofo e pensador da cultura africana e afro-americana nascido em Londres e criado em Gana. Eleito um dos principais pensadores globais pela revista Foreign Policy, em 2010, leciona na Universidade Princeton. Seus interesses envolvem ainda história intelectual e estudos literários e culturais. Entre seus livros, foram publicados no Brasil O Código de Honra - Como Ocorrem as Revoluções Morais, Na Casa de meu Pai - A África na Filosofia da Cultura e Introdução à Filosofia Contemporânea.
Peter Singer, 26 de agosto
Filósofo moral nascido na Austrália, tornou-se mundialmente célebre em 1975 com a publicação de Libertação Animal, livro que se tornou a bíblia do movimento pelos direitos dos animais. O termo "especismo" passou a ser amplamente utilizado para definir a discriminação contra seres não humanos. Também publicou no Brasil os livros Ética Prática e Um Só Mundo - A Ética da Globalização, ambos pela editora Martins.
Leymah Gbowee, 9 de setembro
Uma das três vencedoras do Prêmio Nobel da Paz, em 2011, ficou conhecida como Guerreira da Paz. Liderou um movimento de mulheres durante a segunda fase da guerra civil da Libéria (1999 - 2003). Unindo cristãs e muçulmanas, organizou manifestações, incluindo uma greve de sexo. O esforço ajudou a levar ao poder Ellen Johnson Sirleaf, também vencedora do Nobel da Paz, em 2011, a primeira mulher eleita chefe de Estado na África moderna.
José Ramos-Horta, 30 de setembro
Jurista de formação, nascido no Timor Leste, foi, durante anos, um dos principais porta-vozes internacionais da causa da libertação de seu país, primeiramente do jugo colonial português e, após 1975, da ocupação indonésia, que durou até 1999. Pela campanha pelo fim da invasão, recebeu em 1996 o Prêmio Nobel da Paz. Depois da retirada indonésia, foi primeiro-ministro do país de 2006 a 2007 e o segundo presidente timorense, de 2007 a 2012.
Perry Anderson, 14 de outubro
Historiador e ensaísta britânico, é um dos principais analistas do marxismo, tendo discutido em suas obras ideias de Marshall Berman, Sartre, Isaac Deutscher, Louis Althusser e Antonio Gramsci, entre outros. Em 1962, tornou-se editor da New Left Review, cargo que ocupou por mais de 20 anos. Sob sua coordenação, a revista tornou-se uma das mais influentes publicações europeias. Entre seus livros, incluem-se Linhagens do Estado Absolutista e Espectro: Da Direita à Esquerda no Mundo das Ideias.
Paul Zak, 4 de novembro
Norte-americano, Zak é professor de Psicologia Econômica e Administração na Claremont Graduate University, na Califórnia. Com formação em matemática e economia, é um dos fundadores do campo de estudo da Neuroeconomia. Destacou-se ao postular a influência do hormônio oxitocina no despertar da sensação de confiança em aspectos das relações humanas como a economia e a moralidade.
Programe-se
Confira como adquirir seu passaporte para acompanhar as conferências do ciclo de altos estudos Fronteiras do Pensamento, a partir de maio:
- O Fronteiras do Pensamento será realizado em 10 encontros no Salão de Atos da UFRGS (Avenida Paulo Gama, 110), em Porto Alegre.
- O passaporte para todas as palestras da edição 2013 custa R$ 925 (parcelados em até 5x sem juros no cartão de crédito). Como já foi feito em outras edições, não serão vendidos ingressos para palestras avulsas.
- Os passaportes podem ser adquiridos pelo telefone (51) 3019.2326, pelo site oficial do evento (www.fronteiras.com) e nos seguintes pontos de venda: nas livrarias Palavraria (Vasco da Gama, 165) e Bamboletras (Lima e Silva, 776, Loja 3) e no StudioClio (Rua José do Patrocínio, 698).
- Alunos de edições anteriores do Fronteiras e médicos cooperados da Unimed Porto Alegre têm 20% de desconto.
- Ao final do curso, os alunos com no mínimo 75% de presença recebem um certificado de participação de 20h em curso de extensão chancelado pela UFRGS.
- Pode-se acessar www.fronteirasdopensamento.com.br/ para se ter mais informações também.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Goffman's World
No livro "Manicômios, Prisões e Conventos”, o sociólogo Erving Goffman analisa sociologicamente estas três instituições.
Nesta obra, datada de 1961, o sociólogo faz levantamento crítico a respeito da vida dos indivíduos em instituições fechadas e apresenta como este tipo de segregação opera sobre estas pessoas. Este estudo foi feito durante três anos em enfermarias nos Institutos do centro clínico de saúde nos Estados Unidos. Dentre os quais, dá ênfase ao estudo feito na cidade de Washington, no Hospital Elizabeths. A finalidade do autor nesta análise foi conhecer o mundo social dos internados do ponto de vista deles próprios. Goffman observa que ainda que realizado em repartição oficial, com apoio financeiro de outra repartição, o trabalho não sofreu influências ou advertências capazes de restringir a liberdade do pesquisador.
A obra aborda de instituições totais de modo geral e que o principal enfoque refere-se ao mundo do internado e não ao mundo do pessoal dirigente. O livro está dividido em quatro partes. O primeiro, "As características das Instituições Totais", faz um exame da vida em instituições totais. Os demais são: "A carreira mental do doente mental"; "A vida íntima de uma instituição pública" e "O modelo médico e a hospitalização de doentes mentais". Conforme o autor:
Uma instituição total pode ser definida como um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada (Goffman, 1974, p. 11).
Neste sentido podem-se extrair elementos que formam uma instituição total: a) um local de residência e trabalho; b) a presença de um grande número de indivíduos em situação semelhante; c) a afastamento desses indivíduos, por um certo período de tempo, da sociedade mais extensa; d) o confinamento a uma vida formalmente administrada. As principais características da instituição total são: todos os aspectos da vida desenvolvem-se na mesma localidade e sob o comando de uma única autoridade; todas as atividades cotidianas são feitas na presença de outras pessoas, a quem se isenta o mesmo tratamento e de quem se exige que façam juntas as mesmas coisas; todas as atividades cotidianas encontram-se estritamente programadas, de modo que a efetivação de uma acarrete espontaneamente à concretização de outra, conferindo um encadeamento rotineiro de atividades por meio de regras protocoladas e de um corpo de funcionários; as inúmeras atividades obrigatórias encontram-se associadas em apenas um plano racional, cujas finalidades são obter os alvos próprios da instituição. Goffman, além disso, enumera as instituições em cinco grupos distintos.
O primeiro deles é que as Instituições são criadas para vigiar pessoas impossibilitadas e inofensivas, como por exemplo, asilos e orfanatos. A segunda é que são lugares situados para tomar conta de pessoas consideradas incapazes de cuidar de si mesmas, que são do mesmo modo uma ameaça à comunidade, ainda que de modo não proposital, como os sanatórios hospitais para doentes mentais e leprosos. Já o terceiro visa proteger a comunidade contra perigos intencionais, pretexto pela qual o bem-estar das pessoas, portanto isoladas, não estabelece o problema imediato. Incluem-se as penitenciárias, campos de prisioneiros de guerra, campos de concentração. Há ainda, as instituições estabelecidas com o desígnio de cumprir, de maneira mais apropriada, determinado serviço de trabalho, e que se relevam somente por meio de tais embasamentos instrumentais. Nesta ocasião, inserem-se os quartéis, escolas internas, campos de trabalho e colônias. Por fim, os estabelecimentos designados a servir de abrigo do mundo, ainda que muitas vezes sirvam, além disso, como lugares de instrução para os religiosos, como mosteiros, conventos, etc.
A prisão, para Goffman é uma instituição total. Toda instituição aspira parte do tempo e do interesse de seus membros, proporcionado-lhes, de certa forma, um mundo particular, tendo sempre uma tendência absorvente. Quando essa tendência se aguça nos deparamos perante as chamadas instituições totais, como é o caso da prisão. A tendência absorvente ou totalizadora está simbolizada através dos obstáculos que se contrapõem à interação social com o exterior e ao êxodo de seus membros que, na maioria das vezes, contraem forma material. Isto é, portas fechadas, muros aramados, alambrados e outros. Um dos aspectos que provoca sérios questionamentos a respeito das possibilidades ressocializadoras da prisão é o caso desta, como instituição total, absorver toda a vida do recluso, servindo, por outro lado, para demonstrar sua crise.
O sociólogo insere a prisão dentro do terceiro tipo de instituições totais, que são aquelas organizadas para dar proteção à comunidade contra aqueles que constituem propositalmente um risco para ela e não apresentam, com intuito imediato, o bem estar dos internos. O fato de as prisões terem como finalidade central à proteção da sociedade é outro dos aspectos que indica intensas contradições sobre a finalidade ressocializadora que se confere à pena privativa de liberdade.
Ao chegar à instituição, este internado traz consigo uma cultura que é a estabilidade de sua organização cultural. Com a permanência na instituição, que pode ser muito longa, pode acontecer a perda daquelas referências culturais. Este processo é distinto da aculturação ou assimilação e desvirtua o internado a uma grande dificuldade ou a uma insuficiência de encarar os aspectos da vida habitual, quando regressa ao “mundo de fora”.
As instituições totais criam uma tensão entre o “mundo doméstico” em que vivia o internado e o “mundo institucional” em que passa a viver, utilizando-a como uma força estratégica no controle de homens.
Geralmente, o processo de admissão também leva a outros processos de perda e mortificação. Muito freqüentemente verificamos que a equipe dirigente emprega o que denominamos processo de admissão: obter uma história de vida, tirar fotografia, pesar, tirar impressões digitais, atribuir números, procurar e enumerar bens pessoais para que sejam guardados, despir, dar banho, desinfetar, cortar os cabelos, distribuir roupas da instituição, dar instruções quanto as regras, designar um local para o internado (GOFFMAN, 1974, p.25-26).
Expõe que na instituição total há uma incompatibilidade entre o pessoal e os internos. Essa incompatibilidade se expressa por meio de rigorosos estereótipos: o pessoal tende a avaliar os internos como bárbaros, velhacos e indignos de confiança. Os internos, por outro lado, tendem a avaliar o pessoal como insolentes, arbitrários e mesquinhos. O pessoal tem um sentimento de superioridade em relação aos internos e estes tendem a sentirem-se, ainda que inconscientemente, inferiores àqueles, débeis, censuráveis e culpados. Esses sentimentos contrários são uma grande barreira, sobretudo quando se almeja sobrepor técnicas de cura dirigidas à recuperação do encarcerado.
O antagonismo entre pessoal e internos é algo intrínseco à própria natureza da instituição total. A divergência entre pessoal e internos pode ser tão intensa que os dois grupos podem constituir dois mundos social e estruturalmente diferentes, nos quais poderão existir alguns pontos formais de tangência, mas praticamente sem penetração recíproca. A instituição total transforma o interno em um ser passivo. Todas as suas necessidades de vestuário, lazer, etc, estão sujeitas a instituição. O interno pode adaptar-se com facilidade a maneira de ser passivo, encontrando equilíbrio ou recompensa psicológica em seu exercício. Na instituição total, em regra, não se admite que o interno seja responsável por alguma ação e o que interessa efetivamente é a sua adesão às normas do sistema penitenciário. A passividade do interno transformada em "pautas" normais de comportamento é o efeito que a instituição total produz. É mais uma causa a evidenciar a impossibilidade da ressocialização do delinqüente por meio do internamento.
A instituição total causa no interno, desde o início, uma série de depressões, degradações, humilhações. A tortura é sistemática, apesar de que nem sempre seja proposital. O obstáculo que as instituições totais erguem entre o interno e a sociedade exterior concebe a primeira “mutilação”. Desde o período em que a pessoa é afastada da sociedade, do mesmo modo é excluída do papel que nela desempenhava. Em seguida, o interno é submetido a métodos de aprovação, sendo manipulado, rotulado como uma peça para ser imposta na burocracia administrativa do estabelecimento, no qual precisará ser transformado através de operações de rotina. Esse método leva a uma nova despersonalização e depreciação do ego deste interno. Quando a instituição informa ao interno recém ingressado dos fins e posses que lhe são consentidos, este volta a sentir uma sensação de inferioridade. Os próprios limites espaciais destinados ao indivíduo representam uma forte limitação ao desenvolvimento da pessoa. Outra das graves agressões à personalidade do encarcerado é que a instituição total desobedece e abole completamente a intimidade do indivíduo. Essa intimidade, segundo Goffman é transgredida em dois sentidos. O primeiro é durante o processo de aceitação, no qual todos os dados referentes ao interno, bem como sua conduta no passado, são coletados e armazenados em arquivos especiais, à disposição da administração penitenciária. A instituição total invade todo o universo íntimo do recluso, sejam de caráter psíquico, pessoal ou de qualquer natureza, desde que possa expressar alguma difamação. O segundo igualmente se extingue a intimidade pela deficiência de privacidade com que se desenvolve a vida cotidiana do interno. Ele jamais está só. Precisa conviver com pessoas que geralmente não são suas amigas. A obrigatoriedade de estar com outras pessoas pode ser tão penosa como o afastamento constante. O mais grave desta condição é a impossibilidade de saída da instituição total como acontece na sociedade civil. Essa desmoralização à intimidade da pessoa verifica-se inclusive nos lugares resguardados, como quartos e banheiros.
Mais uma conseqüência contrária que uma instituição total produz é a subordinação do internado a um procedimento de perda da competência para adquirir hábitos que se estabelece na sociedade em comum. Todas as negatividades relacionadas sobre uma instituição total como a prisão, mostram que esta é um instrumento inadequado para a obtenção de algum efeito positivo sobre o recluso e reforçam a tese de que a prisão, como resposta penológica, encontra-se efetivamente em crise. Por outro lado, o internado recebe um conjunto de instruções que levam a reorganização pessoal. Trata-se do sistema de privilégios que possui três elementos básicos, conforme o autor. O primeiro deles diz respeito ao conjunto de prescrições e proibições. O segundo é um pequeno número de privilégios definidos, conferidos em troca de obediência à equipe dirigente. E por ultimo, a imposição de castigos como decorrência de indisciplina. Existe, também, um "sistema de ajustamentos secundários” que admite aos internados a aquisição de algumas satisfações proibidas.
A partir da presença de ajustamentos secundários, podemos predizer que o grupo de internados criou algum tipo de código e alguns meios de controle social e informação para impedir que um internado informe a equipe dirigente quanto aos ajustamentos secundários de outro (Goffman, 1992, p. 54-55)
O sistema de privilégios e os processos de mortificação constituem condições às quais o internado deve adaptar-se. Para isso, Goffman nos mostra táticas diferentes, como quando o internado deixa de dar atenção a tudo, menos aos episódios que cercam o seu corpo; a "tática da intransigência" (o internado intencionalmente desafia a instituição ao negar-se a cooperar com a equipe dirigente. Em troca, recebe um excessivo castigo e a instituição resolve vencê-lo) e a "colonização" que incide na adoção da instituição, pelo internado, como o "seu lar". Para o sociólogo cada tática concebe uma configuração distinta de encarar o conflito entre o mundo original e o mundo institucional.
A administração penitenciária apóia a dominação que alguns encarcerados desempenham na estrutura social carcerária. A própria vigilância dá alguns privilégios aos reclusos para que auxiliem na adaptação dos demais às regras da prisão.
A conflitante realidade penitenciária supõe que as autoridades penitenciárias devam propiciar um ambiente reabilitador, quando, na verdade, são obrigadas pelas situações, a fortalecer os poderes de determinados líderes, contrariando os objetivos reabilitadores da pena privativa da liberdade.
A obra "Manicômios, Prisões e Conventos” de Goffman aborda as instituições totais. As instituições totais, em razão do seu fechamento, provocam a destruição da personalidade do internado, impossibilitando-o de conquistar o papel anteriormente desenvolvido no mundo exterior, havendo antagonismo entre o grupo dirigente e o grupo de internados.
No caso da instituição penitenciária, mesmo não a considerando uma instituição total, mas uma instituição relativamente fechada, já que no Brasil o recluso tem a chance de manter relação com o mundo exterior, é evidente que muitos dos efeitos da obra de Goffman podem ser aplicados ao sistema social carcerário: a dualidade entre os funcionários das penitenciárias e os reclusos; a mortificação do eu do interno; a estratificação social da sociedade carcerária; o sistema de privilégios, a linguagem empregada nos estabelecimentos carcerários; o código dos internos; a institucionalização dos internos; dentre os fatores que autenticam o valor desse estudo para área da sociologia jurídica.
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